No meio do ano passado (2009) acabei cedendo uma entrevista pro pessoal do FLi Multimídia que desenvolvia uma pesquisa sobre educação e tecnologias em projetos do governo federal. Esse material está disponiivel no site http://educacao.culturadigital.br/
09
2009
Relatório sobre o Laboratório de Conhecimentos Livres
Por Banto e Rafael Evangelista – 21 março 2005
Um espaço de uso de ferramentas livres, repleto dos valores que acomunidade software livre carrega nas linhas de código de cada programa
No início de junho de 2004, em Porto Alegre, aconteceu a quinta edição do Fórum Internacional de Software Livre. Naquele espaço de troca experiências técnicas e políticas em torno do Software Livre surge a proposta de investir no uso de ferramentas livres na quinta edição do Fórum Social Mundial. Alguns grupos (Planeta Porto Alegre, Hipatia, PSL-BR) e indivíduos mostraram-se interessados nas primeiras idéias e na atuação em um espaço com tantos grupos diferentes, unidos na vontade comum da construção de um outro mundo. Foi criada uma lista de discussão (fsmlivre en listas.hipatia.info), de vida curta. Mas logo algumas pessoas se animaram e retomar a idéia de construir um espaço de uso de ferramentas livres, repleto dos valores que comunidade software livre carrega nas linhas de código de cada programa. As propostas iam deste da migração do site oficial do V FSM ao uso de ferramentas livres e legitimição por parte do comitê organizador da idéia de compartilhamento de conhecimentos. Esses sentimentos iam de encontro a propostas já discutidas no GT de comunicação, principalmente aquelas de apoio à mídia alternativa/independente. A partir do acúmulo do FISL, da lista de discussão fsmlivre e de experiências no polimidia, surge a proposta do “Laboratorio de Conhecimentos livres”. Vários atores/as foram importantes da construção desse projeto, como Rita Freire (Ciranda), Daniel Merli (Comunicação do V FSM), Salete Valesan (Instituto Paulo Freire), Viliano Fansini e Everton Rodrigues (do Acampamento Internacional da Juventude), Rafael Evangelista e Antonio Martins (Planeta Porto Alegre), Felipe Fonseca (Metareciclagem) e tantos outros/as que, direta ou indiretamente contribuíram na construção do espaço em tantas reuniões e mensagens eletrõnicas.
O primeiro rascunho da idéia do espaço do Laboratório de Conhecimentos Livres deu-se em reunião inicial entre representantes o Planeta Porto Alegre, Coletivo Palmarino e MetaReciclagem. Partiu-se da idéia de pontecializacao e apropriação tecnológica por parte de ativistas e grupos de comumincação, no sentido de contribuir para uma comunicação livre e diversificada, assim como na redução do custo de uso de licenças de programas proprietarios, na filosofia de compartilhamento de informações e do conhecimento por meio do copyleft, na organização dos movimentos e agilizadade da informação. Foi um ponto comum a idéia de que os grupos participantes deveriam ter total liberdade de ação e gestão.
A partir dessas demandas, vários coletivos de comunicação, cultura e grupos de software livre vieram a formar um time inicial. Realizariam essas atividades atráves de oficinas dentro do espaço reservado. A parceria entre esses grupos se deu com diversas propostas. Os grupos levariam seus próprios equipamentos (o que reduziria muito o custo da atividade), como parte da idéia de autogestão, e a organização do FSM se responsabilizaria por um espaço com conexão à internet e por transporte de pessoas e equipamentos, para que os coletivos levassem seu material de trabalho para Porto Alegre.
No decorrer de várias reuniões, a necessidade de autonomia do LCL em relação ao FSM e ao Acampamento foi diversas vezes colocada, para que todos pudessem ser organizadores dos espaço e que não houvesse nenhuma forma hierarquia, uma vez que cada um construiria uma parte do projeto importante para o todo. Em um primeiro momento, pensou-se que o melhor seria ficar próximo aos principais eventos do FSM, para garantir grande exposição mas, ao longo das reuniões, a partir do novo desenho do FSM e com a garantida de espaço autônomo oferecida pela coordenação, optou-se pelo AIJ. Lá, seria o centro nervoso do FSM, e o AIJ acabou por propor a adoção da idéia como um dos seus 9 espaços.
A comissão organizadora do AIJ tratou de organizar o espaco+conexao, os 10 coletivos ansiavam pelo momento, mas ainda restava a resposta positiva (ou negativa), por parte do FSM em relacão ao ônibus, o que so viria se confirmar poucos dias antes do FSM. Um dos ônibus que seria pago à comissão do Fórum organizador de Espírito Santo vagou e o COB decidiu que o melhor seria liberar o ônibus para o pessoal do LCL.
Feita a correria atrás do fretamento do ônibus – que na última hora quase deu errado pela situação irregular de uma das empresas cotadas – tudo certo. Dia 23, rumo à POA. Mas, antes, fechamos de nos unirmos com a caravana do midia sana pelo país. A idéia da caravana era parar em algumas capitais – midia sana fez atividades em Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis e no FSM. Fechamos ativdades conjuntas em Curitiba e Florianópolis, que aconteceram entre os dias 23 e 24 (mais informacões em www.mediansana.org). NO dia 25, de manhã, estávamos em terra gaúchas.
Chegando, o espaço que viria ser o LCL, ainda não estava terminado. Então, mãos à obra. Ajudamos a terminar o teto – que, com o vento que estava, iria zuar tudo la dentro. O LCL era feito de palha e barro, com estrutura de bambu (como pode ser visto no vídeo realizado Gt-memória, pelo Forum de TVs http://fsm.procempa.com.br/forumdetvs/prog002/Mudar%20o%20mundo.mpg ). Ali seria nossa morada durante todo o FSM.
Enquanto alguns ficavam arrumando o teto, outros iam arrumando as barracas na cidade das cidades. Fechamos tudo para que à noite acontecesse uma reunião de gestão do LCL. Presentes vários coletivos : Metareciclagem, Joinha Filmes, Raio X Comunicação, Articuladores, Coletivo Palmarino, Centro de Mídia Independente, Rizoma Radios Livres e Radios Comunitarias, Media Sana, GT Memoria e outros indivíduos interessados em participar da gestão do espaço.
O Laboratório ficou dividido em quatro espaços : Laboratório para acesso web e realização de oficinas ; espaço para rádios livres e comunitárias ; espaço de experimentação de software, onde acontecia uma troca de experiências mais contínua com os grupos de comunicação interessados em voltar para suas localidades com mais domínio dos softwares ; e um espaço aberto para atividades espontâneas. Para propor atividades ao LCL de Oficinas bastava colocar um cartaz no mural de atividades e pronto. Cada oficina tinha uma duração aproximada de duas horas e, assim, se fez a autogestão do espaço. Aos poucos forão aparecendo várias propostas de oficinas. Oficinas de Animação (Blender e Gimp), Edição de Audio (Ardour, rezound, freebirth), edição de video (Kino e Cinelerra), Diagramação (Scribus), Desenho Vetorial (sodipodi), Jornalismo Comunitario e software livre (OpenOffice Writer), Usando Plaforma Web para organização social, Distrubuição GNU/Linux X-Evian, Reciclagem de micros antigos, Introdução ao software livre, instalação e configuração do sistema operacional gnu/linux e outras atividades.
No espaço das rádios aconteceram atividades praticamente o tempo todo, várias rádios transmitiam suas idéias. Cinco computadores ficaram para edição dos programas. Aconteceram transmissões ao vivo pela rádio livre via web e uma troca de idéias com a rádio zopote do México. No espaço aberto, aconteceram várias atividades, sendo algumas delas sobre organização de ONGs, comunicacão, aprensentacão de bandas, e tantas outras reuniões de grupos. Rolaram também apresentações diárias de música popular brasileira com a banda Expresso 411
E à noite aconteciam as festinhas com muita dança e cerveja.
Até o Ministro Gilberto Gil passou por lá, junto com o criador do Creative Commons Lawrence Lessig. A visita gerou uma intervenção do pessoal das rádios livres e comunitárias, questionando o grande número de casos de prisões e fechamentos de rádios pelo governo Lula, isso logo após uma desmonstração do trabalho do pessoal do media sana e articuladores. Mas tudo acabou em samba e no peso popular brasileiro, com o pessoal do expresso 411 tocando com o Gilberto Gil.
O movimento no LCL foi muito grande, com ativistas querendo saber mais sobre o que era tudo aquilo, pessoas utilizando o laboratório para acessar a internet. A imprensa de vários países cobriu as atividades.
Na verdade, o laboratorio de acesso a internet foi mal utilizado. Via-se que poucos do públicco fazem um bom uso da rede. Havia máquinas boas, conexão boa – no primeiro dia houve vários problemas com a rede, mas solucionados a partir do segundo dia. Havia sempre fila para acesar à internet, mas o que se via era que as pessoas gastavam muito tempo em chat, nos sistemas do orkut e msn, isso em um momento em que várias coisas aconteciam ao redor. Incrivelmente, via-se inúmeras pessoas usando hotmail, da Microsoft, empresa que contraria todos os princípios da comunidade livre. Aquele terrível desenhos azul do site da empresa corrompia a harmonia das telas.
Em um certo momento houve estresse entre os coletivos, que chegaram a se estranhar em horas de discussão – mas tudo terminou em cerveja. É muito fácil defender um momento de diversidade, mas viver a diversidade é outra coisa. Ali era o momento de estar com o diferente, com o outro, aquele que sempre quer falar, ser ouvido, deve aprender também a ficar quieto e ouvir.
E tome baixar fotos de câmeras digitais, gravaço de cds, digiltalização de áudio dos mds, carregar bateria de celular e filmadoras.
Pessoas fotografando, gravadores para todos os lados, entrevista aqui e ali, troca de contatos, risos, nervosismo, amadorismo, muita experiência, oficinas lotadas, conhecimento compartilhando, quem ensinou tambem aprendeu, erros e acertos, alegria, picuinha, anarquista, socialista, comunista, *istas e *ismos, quero mudar o mundo, estou só de passagem, o que esta acontecendo ?! tinha de tudo.
Esse foi o laboratório de conhecimento livres.
07
2009
O agitador da inclusão digital
Banto, implementador do Gesac, anda o país inteiro dando oficinas. Para ele, as pessoas devem renunciar ao que parece fácil e “aprender a aprender”. Verônica Couto
Para Banto, ou Rafael Gomes, quem quiser realmenter interferir socialmente, mudar as coisas, no processo de inclusão digital, vai ter de enfrentar e desconstruir o discurso dominante que, segundo ele, prega o “apenas use, não pense”. Na sua opinião, as pessoas devem “aprender a aprender”. Renunciar ao que parece mais fácil e à idéia de que basta apertar um botão para ser feliz. Em vez disso, ele quer que as comunidades assumam a dor e a delícia de se apropriar dos conhecimentos. Um pouco como ele mesmo fez. “Aprendi a mexer com tecnologia na rua, nas santas efigênias da vida, com os amigos”.
Banto é um dos 20 implementadores sociais do Gesac-Governo Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão, que percorrem o país em oficinas técnicas para os 3,2 mil pontos de presença do programa. O papel desses educadores é ajudar as comunidades a conhecer e usar a cesta de serviços oferecidos pelo Gesac. Na prática, fazem mais do que isso: disseminam a cultura do software livre, estimulam o trabalho em rede, tentam convencer diretores de escola a abrirem os laboratórios de informática à comunidade, apóiam a formação de jornais comunitários, etc.
Como o Gesac atende a mais de um programa – Casa Brasil (ITI/MCT), Pontos de Cultura (MinC), telecentros da sociedade civil, escolas da rede pública —, os seus implementadores acabam construindo pontes entre as várias iniciativas. Para Banto, os impactos positivos dos projetos seriam maiores se eles trabalhassem realmente juntos, de forma articulada. Em São Paulo, por exemplo, o implementador avisa que muitas antenas devem ser remanejadas de escolas públicas, porque um programa do governo estadual dará a elas outra opção de conectividade. Há dois meses, ele tenta obter o mapa de outros projetos na região, que poderiam ser beneficiados, mas ainda não conseguiu.
A figura do implementador está prevista no edital do Gesac, vencido pela Vicom, empresa da Comsat internacional. Os contratos com esses profissionais, terceirizados pela Vicom para a consultoria Stefanini, ainda não foram assinados – porque eles não concordaram com os termos. Dentro do Minicom, considerou-se, recentemente, a possibilidade de dispensar essa exigência no próximo edital. “Mas sem implementadores, não vai dar certo”, garante Banto.
ARede • Desde quando você trabalha no Gesac?
Banto • Há cerca de um ano, a convite do Antônio Albuquerque (coordenador, que deixou o programa em 2005). Vim porque o edital do serviço previu a figura dos implementadores sociais. Depois de um mês de ambientação, para conhecer o projeto, fomos para a nossa primeira atividade, em Teresina (PI), a Oficina Estadual de Multiplicadores do Piauí.
ARede • Há uma formação, um curso, para o implementador?
Banto • Tem sim, duas capacitações. Mais do que isso, há, na verdade, alguns critérios para contratar um implementador, que foram considerados, principalmente, nas primeiras contratações. Boa parte tem vínculo com movimentos sociais e é ligada à democratização dos meios de comunicação. É um perfil bacana para o Gesac, porque, hoje, o programa oferece todas as ferramentas para comunicação através da internet. Desde e-mail até VoIP. Outro critério era conhecimento de software livre.
ARede • O serviço de VoIP já está operacional?
Banto • Já. O problema é que o satélite tem seus prós e seus contras, ou seja, algumas restrições técnicas. Todos os serviços são em software livre, menos VoIP e multicast, porque os fornecedores dizem que não há solução para essa plataforma. De fato, no caso do multicast, o Linux suporta áudio, mas não vídeo, e não há alternativa. Mas, até o fim do ano, a Vicom/Comsat quer migrar o multicast para plataforma aberta.
ARede • Qual o papel dos implementadores sociais do Gesac?
Banto • O Gesac tem parceria com outros Ministérios – para o Fome Zero, com a Defesa, a Cultura, etc. E, nesses projetos, colocou antenas de satélite, um servidor e, junto com isso, uma cesta de serviços. Passado um tempo, percebeu que os serviços não estavam sendo utilizados. Os serviços eram e-mail, hospedagem de sites (a “Pousada”), a lista de discussão, um jornal coletivo feito pelas comunidades (a “Teia”), o Rau-TU (perguntas e respostas), um sistema de controle de versões (CVS) – para administrar arquivos e programas criados de forma descentralizada, um escritório (com ferramentas para trabalho em grupo). Além de outras coisas, como o Wiki, que a gente usa, mas não é oficial. O Gesac é um processo. A gente vai lendo e relendo, e criando novas soluções. O Wiki, agora, vai entrar no pacote de serviços oficiais. Muitos pontos estão em escolas, onde a galera pode escrever sua própria história usando Wiki.
Mas boa parte dos parceiros não sabe como usar essas ferramentas. Por isso, o edital de 2004 previu as oficinas e a figura do implementador, para potencializar os pontos de presença, apresentando esses serviços. O implementador sai rodando o Brasil, vendo quais são as dificuldades, buscando soluções, e organizando oficinas locais, regionais e estaduais sobre os serviços e sobre software livre. Por exemplo, o pessoal quer fazer um jornal comunitário – a gente dá oficina de Scribus (sistema de editoração para Linux). Quer fazer uma página, nós temos um serviço de hospedagem, explicamos como é a “Pousada”, e damos uma oficina de HTML. Também conversamos sobre conselho gestor ou comércio eletrônico, em locais onde há uma economia solidária. O implementador tem esse papel de instigar.
ARede • Vocês são designados para regiões específicas?
Banto • No meu caso, estou com a região centro-oeste do estado de São Paulo. Mas isso não é muito respeitado, porque eu, por exemplo, viajo o país todo. Vou dar uma cobertura, porque uso o software livre há muito tempo. Já estive no Mato Grosso, na Bahia, no Maranhão, Minas Gerais, Piauí, São Paulo, Rio de Janeiro. Mas fico mais em Campinas, Guarulhos, Mauá, Nuporanga, Ribeirão Preto, Sumaré.
É muito louco. Aqui em Guarulhos, por exemplo, terceira maior cidade do estado, não chega conexão rápida (ADSL), só a antena Gesac. Em Campinas, também há lugares onde não chega. No município de Eldorado, onde existe um quilombo na comunidade de Ivaporunduva, na cidade toda, o único lugar com conexão rápida é no quilombo, pela antena Gesac. A luz elétrica só chegou agora. Na maior parte dos lugares onde eu fui, a luz chegou há poucos meses, nesse projeto Luz para Todos (do governo federal).
ARede • Como a comunidade pode conseguir que um implementador vá dar uma oficina?
Banto • A gente visita, primeiro, os projetos dos parceiros – MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), Casa Brasil, Banco do Brasil, etc. Depois, mesmo quando não é parceiro, a gente vai porque o projeto tem uma proposta de software livre ou de inclusão digital, e usa o espaço para ajudar as comunidades. Como acontece? Como aconteceu no Casa Brasil, em Guarulhos e em Mauá. Eles ficaram sabendo que eu era o implementador da área. Ligaram, pediram uma oficina. A gente vai, visita, e faz um plano de trabalho para o mês. Uma equipe, em Brasília, dá o suporte para os implementadores em campo e organiza a logística. O Ministério aprovando, a gente começa a trabalhar no mês seguinte.
ARede • O que você tem visto por aí? Os projetos trazem benefícios efetivos nas comunidades?
Banto • Tem de tudo. Alguns são muito avançados, como a Casa de Cultura Tainã (em Campinas), onde acontecem mil coisas. Outros estão desligados. Agora, temos um sistema que acompanha o nível de utilização do ponto de presença. Se estiver baixo, é um dos critérios de visita. A gente chega lá e pergunta: “Por que o ponto está parado? Quer saber como funciona? O computador está quebrado, vamos pôr para funcionar? Ah, só tem um computador? Então o Gesac pode tentar conseguir mais um”.
Em São Paulo, por exemplo, várias escolas estão ingressando no programa Intragov, do governo do estado, e recebendo outra conexão. E não usam mais a antena Gesac. Outros pontos tiveram problema técnico. Em uma escola de Campinas faltava um roteador. Ainda falta, vamos tentar resolver. Noutro, a conexão estava muito lenta e desanimava o professor a levar os alunos para o laboratório. Aí, precisa ver se a conexão está lenta por causa de configuração do servidor – se tiver Proxy, fica lento mesmo. Há vários motivos para a subutilização ou não utilização.
Já outros pontos vão muito bem. No Ceará, o pessoal toca notícia o tempo todo na Teia, há bastante tempo. São bem organizados, o processo está avançado. No Paraná, um amigo implementador diz que vai visitar as escolas, e as pessoas já estão esperando fibra óptica, não querem mais saber de satélite, e fazem um monte de coisas. Em Minas Gerais, também há parcerias importantes, muitos laboratórios com Linux. Noutro extremo, estão os lugares onde só há um computador – mas é muito longe, onde não chega nada, e o ponto é a única conexão. Vamos desligar? Não. A gente busca a parceria do Banco do Brasil e tenta conseguir mais um computador.
ARede • Dá para avaliar qual seria a principal barreira, quando os projetos não avançam?
Banto • As pessoas desconhecem as tecnologias, desconhecem o básico. Sem esse espaço de oficina, o telecentro não vai funcionar. Ou então, as pessoas só vão acessar Orkut e MSN. A oficina é uma forma de incrementar. Outra forma é sentar na frente no programa e ir aprendendo. Não é difícil. As pessoas pensam que é um bicho de sete cabeças. O nosso maior problema, na inclusão digital, é desconstruir um discurso que se prolonga há décadas. É o discurso do “somente use”. Quem quer, realmente, interferir socialmente, no processo de inclusão digital, vai bater com isso, que é desconstruir esse discurso. Vai ter de discutir – o que é esse fácil? Esse fácil vai deixar você dependente. Nós queremos você autônomo, independente. Vai doer, é lento, vai exigir esforço. E o educador precisa entender, também, a diferença de velocidade de aprendizado de cada pessoa. Precisa romper um monte de coisas. É doloroso, demora.
Mas, quando a comunidade aprende a aprender, desenvolve-se rapidamente. Os alunos pegam qualquer programa, vão mexendo, fica fácil. A lógica do software proprietário impede isso. Porque a lógica dele é: você só aperta aqui, que a gente faz tudo. Quando a pessoa vai lidar com outra ferramenta, tem dificuldade. Quem usa Windows e vai mexer com Linux enfrenta um problema. Há quem diga nas oficinas, de brincadeira: se mudar a cor do mato, o burro passa fome. No navegador web, a opção de digitar o endereço é a mesma, a de parar é a mesma, a de atualizar é a mesma. Só porque mudou a localização ou a cor do botão, a pessoa se perde. Quem mexe com editor de texto livre desde o começo, aprende a entender a lógica do programa e se vira bem com qualquer um.
ARede • Você se lembra de algum episódio em que a apropriação tecnológica tenha acontecido e onde não?
Banto • Numa oficina em Guarulhos, recente, montei minha grade de atividades, e no último dos três dias, não precisei fazer mais nada. A galera aprendeu tudo. As perguntas eram focadas. Por exemplo, queriam saber como fazer, com HTML, um site interativo para RPG. Expliquei que não dava, que era necessário um programa dinâmico, como o PHP. Quando vi, eles já estavam com as páginas abertas, mostrando como programar em PHP. Noutros lugares, não é assim. Por exemplo, numa oficina de lista de discussão, depois de um mês, não veio nenhuma mensagem. Nesse caso, temos de fazer uma autocrítica. As pessoas nunca viram essa ferramenta. Ela aparece, e aí? O que eu faço com isso na minha vida, como isso pode me ajudar? A questão é a da apropriação mesmo.
No caso do Gesac, existem os implementadores da área, que vão visitar os pontos. E, em geral, são pessoas da comunidade, que têm vontade de aprender e incentivam. Nos lugares onde não há essa pessoa, um animador, às vezes, o laboratório fica muito subutilizado. Nesse sentido, alguns dos seviços do Gesac são justamente para procurar ajuda. Se você tiver dúvida, manda e-mail para o implementador, entra no Jabber (para troca de mensagens instantâneas), manda mensagem no Rau-Tu, liga no 0800, ou telefona para a gente, que a gente vai fazer uma visita. A idéia é que as comunidades usem os recursos de comunicação. E que o implementador preencha esse vazio. O conselho gestor também é uma coisa legal.
ARede • Você tem visto muitos conselhos formados?
Banto • Não. Vi dois, na Casa Brasil. Mas, em alguns lugares, não precisa, porque já existe outra forma de organização. Em Nuporanga (SP), numa escola, a coordenadora é superanimada, tem uns educandos que ficam agitando, a diretora deixa o laboratório aberto. E as coisas simplesmente acontecem. Mas falta muito isso. O papel de um monitor, implementador, que fique próximo ou diariamente no local. Se esperamos que o telecentro tenha a perspectiva de mudança das coisas, é necessário um animador de festa e que domine a tecnologia. Porque não adianta ter as idéias e não saber como fazer.
ARede • E há muita gente dominando as ferramentas para dar conta dessa demanda?
Banto • Poucos. Por isso, fico viajando para cima e para baixo. É uma coisa nova. Além de ser nova para quem trabalha com tecnologia, para quem trabalha com inclusão digital também. Poucos grupos têm um projeto político-pedagógico. Tem gente que monta um laboratório, coloca acesso à internet, e pronto. Mas já são muitas experiências que, agora, vão incorporando a questão do software livre. Uma pessoa faz oficina, dá para a outra, que faz oficina também, e assim por diante. Esse descontrole social é fantástico.
ARede • As iniciativas se articulam entre si ou, por exemplo, com rádios comunitárias?
Banto • Muito pouco. Um ou outro caso, como na Bahia, onde eles têm um trabalho bom de rádio. Todas as ferramentas do Gesac são para criação de uma rede. Desde o correio até VoIP, para que todos os pontos de presença se comuniquem. Mas é um processo que se constrói aos poucos. Essa rede não vai ser feita de um dia para o outro. Mas a gente instiga. Há casos extremos. Escolas em que os diretores trancam o laboratório. A gente conversa, tenta convencê-los a abrir. Se não dá, desvincula o projeto. Manda para outro lugar. Porque o Gesac custa caro. Isso já aconteceu muito.
ARede • Soube da idéia que surgiu no Minicom de não incluir, no próximo edital do Gesac, a obrigação de ter implementadores?
Banto • O sucesso do Gesac depende dos implementadores. Seria um desastre. Não vão fazer isso, a não ser que o projeto acabe.
entrevista concedida para Verônica Couto, publicado originalmente na Revista ARede – Edição nº 18 – setembro/2006, na versão impressa e também online em http://www.arede.inf.br/inclusao/edicoes-anteriores/70-%20/682