Quase sempre que encontro uma pessoa que recentemente conheceu o mundo Linux percebo um vislumbramento exagerado, que normalmente leva mais pro lado do fetiche do que de fato para qualquer sinal de liberdade, como propõem o mundo GNU/Linux.
Não tem aquela fase no namoro, tão normal de quem inicia no mundo do software livre, de testar várias distribuições, gerenciadores de janela, gerenciadores de arquivos, navegadores web e ou mesmo soluções voltadas para sua necessidade como profissional de qualquer área que necessita de computador. Já é casamento no primeiro encontro, com suas verdades absolutas: Ubuntu, GNOME, Nautilus e turma limitada.
Isso para mim é muito prejudicial, não que vai matar as outras distribuições como já li em vários blog ou site sobre código aberto escritos por enlouquecido ubuntomaniacos, mas esse negócio de ofuscar a diversidade, como vários fachadas de casas mostrando o que há de igual e diferente em relação a outra, para você escolher, só que alguém conseguiu projetar sua fachada no céu, e quem nem chegou perto do bairro já vê aquela casa projetada no céu, contando suas vantagens em relação há outra.
Surge algo desigual que não é necessário a questão técnica de melhorias em relação as outras distribuições: há uma desproporcional marketing e e recursos financeiros investido no projeto de acordo com o manual da capitalismo neoliberal e neocolonial. Envolve aquela idéia que Naomi Klein desenvolveu bem no seu livro “Sem Logo – a tirania das marcas em um planeta vendido”, juntamente com a idéia do pragmatismo do capitalismo, neoliberal e neocolonial.
A idéia da unificação dos tempos para que o mundo ande no tempo de produção e consumo como o capitalismo tem necessidade é naturalizada com o pragmatismo é imposto no fazer das coisas cotidianas. Essa velocidade para fazer algo, a preguiça e indisposição de ler e interpretar fez com que durante as coisas a etiquetas que determinação o maior e menor valor de prioridades da vivência e sobrevivência fossem trocadas. A idéia do conforto proposto pelo sociedade capitalista, e alguns vivem e outros sonham em ter, associo logo com o tempo. a diversidade de tempo logo seria um problema, embora segundo Milton Santos, no livro “Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal”, que somente agora é possível um imperialismo global, pois o desenvolvimento e o dialogue entre a tecnologia, ciência e técnica permite um mapeamento da riquezas global, bem sociais e força de trabalho, a ponto de controlar a exploração e logística de forma global, para montagem e consumo também descentralizada e global. Vacilando e dando pouca importância a riqueza da diversidade dos tempos, e golpe foi dado. O pragmatismos capitalismo impede hoje o pensar, o abstrair da realidade a ponto de se perceber nela. No filme Avatar trabalha bem essa idéia do tempo, qual a personagem diz “estou te vendo”, tem sentido… e real em todo o filme de várias formas sútis. esse ver assim e ver ao outro é mais a incorporação de um outro criado pela corporações. Naomi Klein diz que a Nike paga mais para o Michel Jordan nas campanhas publicitárias do que todos as pessoas sub-empregadas das empresas terceirizadas na Indonésia.
O Ubuntu não saiu da regra. Usou as mesmas armas de qualquer corporação. A idéia aqui não é colocar a distribuição Ubuntu como má, mas analisar para que num segundo momento pensar o que isso possa acarretar na educação.
Por causa da fachada refletida no céu, as pessoas não puderem nem mesmo saber o nome de outras distribuições, o que diria instalar em suas máquinas e ver a performance e recursos alternativos.
Milton Santos vai dizer que hoje a ideologia é não ter ideologia, ao mesmo tempo que nunca se viu a abrangimento e totalitarismo de uma ideologia, que ele chamou de globaritarismo. As pessoas logo vão afirmando que o Ubuntu é mais fácil e melhor opção para o usuário final. Ela não instalou outra e já diz que essa é a melhor. Outro erro é importar o conceito de usuário final para o mundo do software livre. O pessoal do OpenSource sempre teve o fetiche ou inveja em ter os usuários de software proprietários sobre seus mantos. O investimentos de grandes empresas no mundo OpenSource transformou esse sonho em realidade. Para que isso fosse possível foi necessário cortar os limites impostos por ideologias agregadas ao FreeSoftware. Isso se deu num primeiro momento com a não-discussão e no segundo momento confundido os termos, deixando entender que são as mesmas coisas. O terceiro momento já foi a pena capital com a entrada de grande capital das corporações. E passou a ser ironizado o/a desenvolvedor(a) hobbistas, assim como a idéia de generosidade intelectual tem seus princípios pichados.
Para a criação da marca o Ubuntu iniciou com duas frente, Merchandising: a primeira foi com o slogan “Linux para seres humanos” e a segunda com a distribuição gratuita, mundialmente, de CD de instalação (com encarte) numa quantidade de 50 unidades de CD por caixa por solicitação, feita pela web.
Boa parte dos projetos de software livre e código aberto até então montava uma especie de associação entre desenvolvedores e suporte técnico para viabilizar a forma remunerada de seu trabalho, que se dava na venda de um pacote, com Cds, manual e o suporte via e-mail e telefone, tendo localmente pessoas especializadas para suporte presencial num especie de consorcio com pessoas qualificadas através de treinamentos dado pela empresa, personalizada na forma de um distribuição, como a Conectiva no Brasil. Essas soluções que tinham em vários locais do mundo acabam perdendo espaço pela mudança no mercado. Elas passaram a ser vendida para empresas de hardware, servidores ou soluções web.
O Ubuntu, que tem seu desenvolvimento financiado por uma grande empresário, tem como alvo inicial solução para Desktop. As soluções eram customizações de soluções espalhadas por site como sourceforge.net. Muitas das implementações, as novas soluções apresentadas foram vistas como boas iniciativas porque eram coisas que o mundo do software livre precisavam e ninguém havia dado a devida importância e apresentado a solução, por mais simples que fosse. Em outros casos é injustiça por parte dos novos usuários em não conhecer a história do software livre, de conhecer outras soluções, pois veriam que as mesmas soluções que julgam ser novas já existiam em outras distribuições.
A idéia de criar uma “solução para seres humanos” usarem Linux, reforçada com um marketing pesado no mundo inteiro dá resultado, mas isso me faz pensar nas hipóteses do porque escolher esse slogan: será que o Linux é tão difícil assim? Será que há um universo de pessoas que são incapazes de aprender essa novidade? Será que nunca teremos um público maior de usuárias e usuários?
Essas questionamentos são mais importantes para o pessoal do mundo opensource do que para o free software, pois para a turma do free software as respostas estão nos valores das idéias agregadas ao software tão como ele tem como princípios.
O pessoal do OpenSource coloca como carro chefe a questão técnica, sobretudo, enquanto o FreeSoftware tem a politica. Os dois norteado por ideologias diferentes até se cruzam, coexistem, mas apontam para sociedades e valores totalmente distintos.
Sabemos que todo software antes de tudo é uma idéia, formulada a partir de uma necessidade ou mesmo do ócio criativo. E depois se organizar em metodologias para o seu desenvolvimento. Uma coisa interessante que o opensource e freesoftware vão ter um comum é a forma de desenvolver a soluções de forma colaborativa e coletiva, com diferentes níveis para a organização coletiva do trabalho, que pode ser com uma coordenação em forma de um líder ou de uma lista de tarefas.
Certa fez numa debate, não era um debate e sim uma palestra mas eu acabei fazendo virar um debate, o palestrante faz aquela segunda se do processo de assimilação que citei que era o de confundir os conceitos e provoquei o palestrante com a intenção de atrapalhar o processo ali sendo instalado. Vale a pena lembrar que em boa parte das vezes as pessoas não estão mal-intencionadas, indo lá com segundas intenções do tipo, “faço parte de um projeto e só iremos vencer seguindo as etapas e minha missão é ir lá confundir”, não existe isso declarado, está nas entrelinhas. Isso para mim é a perversidade. A perversidade é a maldade naturalizada, de forma que as pessoas passam ser agentes delas sem saber, e por conta do pragmatismo do capitalismo não conseguem nem mesmo abstrair e perceber seu papel dentro da sociedade, a função que cumpre na pulverização de uma idéia nas coisas simples, cotidiana. O palestrante já irritado com a minha intervenção insistente e acaba voltando para o público e diz que “o opensource é para o software o que é a ciência para o desenvolvendo, que tem que ter liberdade para desenvolver-se e a ideologia é um empecilho para que ela desenvolva” – não são essas as exatas palavras, mas a idéia geral. Adorei a definição. Primeiro que ele saiu do armário, pelo menos para mim. Segundo que é essa justamente a diferença: enquanto o opensource caminha na idéia da tecnologia pela tecnologia, o freesoftware caminha da idéia da liberdade com responsabilidade. Não queremos mais soluções de novas possibilidades de acabar com mundo, queremos ter a minima certeza que aquilo que desenvolvemos de forma coletiva e colaborativa esteja de fato contribuindo com um mundo de mais eqüidade e solidariedade, de respeito a diversidade e a liberdade. Esse conjunto de idéias e valores, essa ideologia acaba por ser orgânica e diferencia aquelas que defende freesoftware do opensource.
Nessa ideologia do freesoftware acaba respeitando a diversidade de tempo, por isso o Debian não segue um desenvolvimento tão rígido, seguindo uma data de lançamento para a próxima versão ser liberada como o Ubuntu faz de lançar a cada seis meses uma nova versão para acompanhar a vários aplicações liberadas constantes para atender a demanda de usuários, principalmente no que se refere a multimídia. Muitas das distribuições além do Debian segue uma agenda mais livre. Essa demanda dos usuários é muito imposta por empresas de hardware, mais do que apropriação tecnológica.
Sabendo que as pessoas tem seus cognitivos diferentes, não faz sentido etiquetar algo “para seres humanos”. Há uma diferença do desenvolvimento do software se direcionado para o ser humano e para o mercado.
A idéia de usuário final foi abandonada pelo software livre, pois uma vez que acredita que qualquer um pode aprender qualquer coisa, isso vai depender do tempo desprendido no emprego do aprendizado do novo e esse tempo não é unificado, percebemos a inteligência que pode ser agregada ao software está mais na forma que a pessoa aprender a usar o software e o que ela precisa dele, do que de fato criar facilidades e novidades só para manter o consumismo de tecnologia. Por entender essa diversidade de tempo e por possíveis dificuldade com o novo propomos os grupos de usuárias e usuários, as festas de instalação, a criação de listas de discussões e fóruns, assim como criação de cooperativas/associações para suporte técnica de empresas e governo. E não há o interesse muito menos agenda para que o mundo todo passe a usar software livre. Entendemos e aceitamos a diversidade de interesses que vão nortear os negócios empresarias, mas sobretudo oferecer alternativas mais justas tecnologicamente dialogando com sociedades mais saudáveis pro bem comum.
Continua…